segunda-feira, 14 de março de 2011

Cartas extraviadas e outros poemas


Ontem finalizei a leitura do livro "Cartas Extraviadas", de Martha Medeiros. É uma obra que contém diversos poemas falando de amor, de desilusão, solidão, esperança e principalmente reflexão. Sou fã e já falei apaixonadamente da sua obra várias vezes aqui no Artscritta. Segue abaixo o poema que se encaixou perfeitamente naquilo que estou sentindo. Tocou-me profundamente:

"Dia após dia o mesmo prato requentado
tarde da noite e nada aconteceu
desperto no escuro
ainda é cedo pra acreditar
que vai haver futuro e que vale a pena
esperar de banho tomado"

quinta-feira, 10 de março de 2011

Uma concha à beira mar


Queria uma concha para me esconder desse mar rotineiro e pesadamente salgado. Ficar na areia, à espera de uma salvação que me leve para bem longe deste oceano de ofensas à dignidade de viver, onde eu pudesse estar coberta com uma manta grossa, completa, amarrada em meu corpo febril e vomitante. Ando a passos lentos, mal deixo pegadas e ainda faço questão de apagar o meu rastro. Sou destinada ao vento, aos devaneios, aos cabelos em desalinho. Tenho ardência no coração e firmeza no pulsar. Vivo a canseira dos dias iguais e sigo em frente, simplesmente por não ter uma opção vulcânica que pudesse pulverizar os meus sonhos e meus ideais. Deito na vida e me enrolo em um lençol de amenidades, olhando para os lados, certa de que vão me resgatar da monotonia da realidade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O grito


Onde mora o grito mais intenso, aquele que vai destratar os ouvidos mais sensíveis? Acho que ele está aqui dentro, querendo volume e expansão. Vou aumentar os decibéis desta voracidade em forma de som aguçado e soltar o grosso dessa vontade. A repressão precisa fugir, essa desorientada que só flagela o corpo que ocupa. O acúmulo deve ser explorado, esquartejado e distribuído para desembocar no ar de fora. E é nesse mundo das confusões que a vida se torna um desafio: tratamento da água impura em bebível nesta realidade onde o esgoto teima em ser mais forte. Garganta coçando, laringe esprimida, estômago em desalinho. O grito sai. Cada vez mais incisivo, aliviante, desafiador e cortante, rasgando regras externas. Depois, até os braços se levantam, quase que instintivamente, num abraçar de prumos e ar se fazendo alegria. A partir de agora, outros gritos virão...

* Parte da tela "O grito”, de Edvard Munch

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ménage à Trois


Mais uma vez, começo a análise minúscula de uma narrativa contando como a obra chegou até as minhas mãos. Gosto dessa relação inicial de encontro entre livro e leitor: parece amor à primeira vista, tesão às primeiras folheadas. No meio dos livrinhos da L&PM Pocket, catando coisas inusitadas, me deparo com o título “Ménage à Trois” e ainda uma capa belíssima, em tons de rosa e vermelho. Logo abaixo do título, à direita, aparece “Eu versos eu / sem vergonha / mundo da lua / e outros poemas”. Olhei o conteúdo rapidamente e, sim, me apaixonei. Adoro essas descobertas literárias, solitárias e simbólicas.

Pesquisando sobre a história do livro, descubro que ele é composto dos três primeiros livros da escritora Paula Taitelbaum, desta vez todos reunidos em um só volume da coleção L&PM. Publicado em 2006, o livro revela um misto de angústia, erotismo, sensibilidade, ritmo, musicalidade, enfim, poemas diluídos em sentimentos e sensações. A obra toca lá dentro, onde só nós alcançamos quando estamos em estado de extremo ópio existencial.

Os poemas gozam de um senso de humor escrachado, delicioso: “Abre as pernas / E fecha os olhos!”. Outras vezes nos faz pensar em coisas simples que dizem muito: “Eu mando você tomar banho / Eu lavo a alma”. Já em outros casos, aparece um poema duro, sem alívio: “Demito minha paixão da coerência / E sem qualquer aviso prévio / Levo meu corpo à falência”. Ainda dentro do erotismo vulgar e sarcástico, encontramos: “Esse infeliz só me vê como uma boceta / Porque no lugar de neurônios / Ele tem gametas”.

Acompanhe abaixo um poema:

Um dia
Você se dá conta

Que a paixão
Não vem pronta
Nem fica tonta
Por tanto tempo
Os modos

Mudam
Os medos

Nos fazem mudos

E o que era tudo

Torna-se agora médio
Que remédio...
Senão matar esse pavor
Com um amor
Maior que o tédio

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eu sei que sou


Eu rasgo pensamentos como quem desfia um tecido estridentemente, primeiro cortando com a tesoura a primeira brecha de ideias. Forço palavras que não são minhas, só para me salvar. Danço conforme a melodia, numa espécie de samba do bem viver. Desperdiço fantasias, glórias e vantagens. Vivo no submundo dos sentimentos. E de lá não sei se quero sair. Ou se saberia sair. Ando caindo ou caio andando toda vez que sinto meus dentes trincarem de prazer ou de dor. Sou efêmera, voraz e latente. Vou de um lado a outro da história sem ninguém perceber. Garanto coragem e inovação, mas só para fora. Por dentro, ai ai, sou doce de leite derretido em chapa quente, sou o avesso do sal, a seca da felicidade. Um dia saio mato afora pra ver se me acho mato adentro. Ou então mato.