terça-feira, 31 de maio de 2016

Coração também encharca



Coração cheio também encharca. Nem que seja de lágrimas de amor e realidade. Porque não é só a ilusão que nos faz subir a montanha com a força de um bicho com fome à procura do alimento. O real, aqui e agora, também pode doer de felicidade. E os olhos marejam, o corpo parece levitar, o sol nubla e brilha ao mesmo tempo num bailar que não incomoda, pelo contrário, ajuda a disseminar esse vermelho pulsante que não é sangue e sim a matéria invisível mais elevada e que nos compõe. Sem o amor, estaríamos condenados ao eterno fracasso, ao desespero, ao fim. A vida latejando é o que nos supre de esperança e gratidão. Mas às vezes dói. Não uma dor insuportável ou negativa. Está mais pra um balde cheio de água limpa e feliz, que também transborda como a água suja. A diferença está no que se espalha no chão ou na vida, mostrando que somos capazes de ter um pedacinho do divino em algum compartimento do íntimo. Vontade de servir, doar, se entregar, devolver ao mundo o que recebemos por meio de fios que os nossos sentidos não alcançam, porém, mais resistentes que qualquer concreto que possamos tocar. Não tem sonho neste exato segundo. Tem a coisa em si, a realidade copulando com o espírito do corpo, a sensatez de beijos trocados na mesma intensidade, o desmatamento da desilusão, o murro na cara exigindo destemor e audácia. O sublime em nós manifesta aperto, contração e vontade: ânimo da semente germinando vida para cima, planta se fazendo vistosa, previsão de frutos suculentos no horizonte e seiva correndo coragem no caule.

Um comentário:

Clara Suzana disse...

Como sempre, esplendida! Há arte nessas palavras!Bjao Lara