quinta-feira, 1 de julho de 2010

Acreditemos nos contrários

Vou começar esse post sabendo que poderei levar críticas, mas atesto que sou uma consumidora de enlatados e de produtos da indústria cultural bastante consciente. Prosseguindo o rumo da conversa, quero aqui falar das letras das canções do padre Fábio de Melo. Não. Você não está delirando. Estou realmente querendo comentar e, por que não, elogiar aquilo que acho merecedor de aplausos.
Esqueçamos o fato de ele ser padre, de ser católico, de pregar coisas absurdas como o não uso da camisinha e do anticoncepcional, de ser um cara que "se aproveita" das ferramentas que possui para obter sucesso. Antes de tudo, é alguém que escreve algumas letras e alguns trechos de música como se nada tivesse a ver com a sua realidade celibatária.
Mas, enfim, vamos ao que interessa. Alguns versos de Fábio de Melo são pura poesia, daquelas simples, diretas, que vão lá no fundo buscar verdades em forma de rimas e melodia. É encantadora a forma como consegue dizer tanto, com fluidez, em frases que juntas fazem todo o sentido.
Bom, não saberia analisar poemas, muito menos os de Fábio de Melo, pois acho que observar o simples é que é o mais difícil, ainda mais quando estamos influenciados pelo preconceito. Só recomendo o seguinte: olhemos mais para o núcleo das questões. Sempre é possível encontrar uma flor no meio de um deserto, no caso, uma poesia dentro do que possivelmente já está manchado pela crítica "cult" brasileira.

Segue abaixo um trecho de uma música que diz muito. Pelo menos pra mim. Afinal, às vezes a questão é só sentir. E não explicar.

Contrários
(Padre Fábio de Melo)


Só quem já perdeu na vida sabe o que é ganhar
Porque encontrou na derrota o motivo para lutar

E assim viu no outono a primavera
Descobriu que é no conflito que a vida faz crescer

Que o verso tem reverso
Que o direito tem avesso
Que o de graça tem seu preço
Que a vida tem contrários
E a saudade é um lugar
Que só chega quem amou
E que o ódio é uma forma tão estranha de amar

Que o perto tem distâncias
E que esquerdo tem direito
Que a resposta tem pergunta
E o problema solução
E que o amor começa aqui
No contrário que há em mim
E a sombra só existe quando existe alguma luz.

2 comentários:

Fátima Lima disse...

Cara Lara, como leitora e comentadora do seu blog não poderia deixar de postar num “texto” tão “inquietante”. A inquietação não se deve à referência ao padre Fábio de Melo, mas às inúmeras possibilidades de reflexões que ele nos provoca. Pauto as minhas:

1) Como antropóloga (às vezes nem tanto assim)entendo e acredito que a dimensão da alteridade ( das diferenças) é o que dá sentido à realidade. E como uma expressão constitutiva de ser “Humano”, toda produção enche-se de significados e sentidos culturais. Coube a “ciência” produzir tipologias: “popular”, “erudito”, “massa”, “brega”, “Cult” e por aí vai a ciência e seus academicismos....

2) Estou de saco cheio desse “povinho” (pseudos) cults e suas necessidades de “ruminar” os mais “nobres” produtos culturais. O sentido de Cult mora numa fineza em ver, ouvir, ler e principalmente sentir o demasiadamente humano. Essa necessidade, por vezes exagerada de se mostrar “Cult”, talvez seja a maior herança do nosso provincianismo. Seu texto me conduziu a essa reflexão.

3) Quanto a poesia da música ou a musicalidade do poema diria que expressa esse jeito louco de amar e de se apaixonar.

Por fim, ontem no aeroporto de Brasília achei um livro ( parte de uma coletânea poesias do mundo) de uma poeta japonesa chamada Yosano Akiko intitulado “ Descabelados”. Curiosa comprei e devorei. É de uma intensidade ímpar. Gostaria que você lesse, por isso quero te presentear, pois sei o quanto gostas de poesia. Pensei em mandar na Secom, mas fiquei em dúvida em qual prédio você trabalha. Manda um e-mail. Parabéns pela coragem do texto. Sua capacidade de alteridade foi além dos limites mais comuns.

rodrigues disse...

A existência e a coexistência estão fundamentadas na simplicidade do ser.
Parabéns, Lara!