quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O peso da contração

Sempre Clarice... Revisitando a minha mais antiga bíblia, "A descoberta do mundo", me deparo com esta crônica ou mini-crônica de Lispector:

Angina pectoris da alma

Só que dessa não se morre. Mas tudo, menos a angústia, não? Quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. E a falta de esperança na esperança. E conformar-se sem se resignar. Não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. Ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. Não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. E então vem o desamparo de se estar vivo. Estou falando da angústia mesmo, do mal. Porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.

2 comentários:

Marcus Fam disse...

De verdade, lendo esse texto de Clarice, autora no qual eu peco de nunca ter lido, eu me deparei diante de um espelho. Parecia eu, pensamentos meus, mas é claro, com palavras melhores escolhidas.
E você, parabéns, por dividir essas sábias leituras com os leigos. Leigos como eu que tem a burrice da preguiça de ler e redescobrir autores de nossa identidade.
Sempre passarei por aqui...

Lara Aguiar disse...

Ah, amei o seu comentário, Marcus! É que também me sinto como se estivesse diante de um espelho nesse texto. Parabéns pela sensibilidade!