sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar e terra - Uma lembrança

Ser canto, sereia, pedra e mar. Como ser música, beleza, fortaleza e imensidão? A ilusão aprisiona, mas também salva. O real amadurece, porém esfacela aos poucos. A água é inconstante, o marejar é selvagem, a fruta apodrece e a vida se torna mais encorpada e enrugada. Distante se torna o nosso olhar para com nós mesmos quando a morte se apresenta e sorri. É a alegria ultrajante que vem do obscuro, daquilo que aparentemente não faz sentido, do negro da noite quando os olhos cerram para o descanso diário. Não querer esse sorriso é uma negação do que somos. Mas também não conseguimos abrir os braços para a fatalidade do nosso destino. É tanta semente, tanto suor, tanta lágrima, tanto esforço, tanto plantio... E lá na frente: uma cruz. É o que nos resta. Sejamos, então, por falta de opção, alertas, felizes, feitos de pulsão e ondas. Vivemos num empréstimo com fim determinado. A cada dia uma pancada de água e espuma na praia: repetições do destino sem piedade. Mas sobrou uma aliança com a circunstância: esperemos a colheita. Boa noite.

Um comentário:

Tarcísio Ramos disse...

Se as traças do tempo roerem nossos lenços as espumas do mar vem para nos salvar. Bonitas palavras!