Amo novidades literárias. Sabendo disso, tenho amigos que me presenteiam com raridades em forma de álcool poético pra duplicar as minhas sensações e arrepios após uma leitura degustável. Estou falando de "Vinhos", livro de poemas de Cecília Ferreira, paulista, nascida em 1956, que já está na sua segunda obra. Anteriormente havia publicado "Instantâneos", também livro de poemas.
À primeira vista, um livro com capa dura, bem delicado, com papel especial, parece obra técnica para enólogos (especialista em vinhos). Mas, já na dedicatória, a beleza de uma frase que parece fazer eco nos nossos tímpanos. Cecília Ferreira diz: "A quem me cerca e permite a proximidade do meu olhar".
O sumário do livro aguça qualquer sentido. É dividido em 4 etapas: Mélicos, Cítricos, Amaros e Raros. A obra traz algo de, no mínimo, peculiar: não tem prefácio. Ou seja, apenas uma breve biografia da escritora. Talvez tenha sido uma escolha pessoal, uma forma de se fazer conhecer apenas através da leitura do público, que saboreia as páginas, sem interferências de opiniões alheias.
Segue abaixo trechos dos poema "Convivência" e "Da fé e do feitiço":
Convivência
Eu som,você viola.Eu carga,você sacola.Eu réquiem,você ofício.Eu couro, você tantã.
...
Eu crack,você o vício.Eu turba no seu comício.Eu láudano,você homicida.Eu Freud no seu divã.
Da fé e do feitiçoEu quero te ver insano,sem a menor sensatez,alienado, demente,dizendo que vai fazeraquilo que nunca fez.Endoidecido de pedra,arrebatado em feitiçoe quero poder dizer,com a face mais contrita:'nada tenho a ver com isso'....Mas quero ser a culpadapelo teu agir assimbater mea-culpa em meu peito,andar sorrindo por nada,ser a bruxa de respeitoque te deixa desse jeito- insaciado - meu anjo.