domingo, 15 de abril de 2012

Bagunça

Aridez de pensamentos. 
Secura de luz. 
Garganta ressecada. 
A pedra descendo na goela, 
o mundo com gosto de bife de fígado 
e o vento entrando torto
por entre as vielas do corpo. 

Um braço habita a falta de coragem
e sai pela boca, 
contorcendo mão e dedos, 
num bailar de fogo pedindo pra ser abanado. 

É um calor que arrepia as vontades, 
cospe brasa no chão
e cede lugar ao aperto. 

Sufoca, 
grita, 
agita, 
aumenta a quentura da agonia. 

A cintura afina, 
o batom gruda, 
o cabelo embaraça. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Oração especial

A revista Lola deste mês de dezembro traz um artigo de Hilda Lucas sobre a coragem de se apaixonar, principalmente pela própria vida. O mais interessante é quando ela enfatiza que o perigo está quando nos acomodamos ao próprio cotidiano engessado. Durante o texto, ela cria duas formas de oração para os "corajosos e lúcidos", como ela mesma diz e que eu transcrevi abaixo:

Senhor, protege-me das prisões do comodismo, da platitude e da estagnação. Dá-me coragem, loucura e tesão para viver sem medo de mim e dos meus sonhos. Dá-me asas e ventos, insônias e angústias, inquietações e algum sofrimento, para que eu possa dizer sim à Vida.

Assombra-me, Senhor! Não permita que eu me afaste do que me identifica, que eu esqueça o que me alegra ou cale o que me traduz. Insufla-me, instiga-me, exige-me ser. Livra-me dos boicotes e adiamentos que eu mesma me imponho. Dá-me paz e paixão, alternadamente, como a chuva e a estiagem - já que uma só existe quando a outra desiste. Faz-me entender que há mais dano no medo de viver que no medo de morrer.

Precisa dizer mais alguma coisa? Desejemos o desafio da vida, porque aí está a graça da existência!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar e terra - Uma lembrança

Ser canto, sereia, pedra e mar. Como ser música, beleza, fortaleza e imensidão? A ilusão aprisiona, mas também salva. O real amadurece, porém esfacela aos poucos. A água é inconstante, o marejar é selvagem, a fruta apodrece e a vida se torna mais encorpada e enrugada. Distante se torna o nosso olhar para com nós mesmos quando a morte se apresenta e sorri. É a alegria ultrajante que vem do obscuro, daquilo que aparentemente não faz sentido, do negro da noite quando os olhos cerram para o descanso diário. Não querer esse sorriso é uma negação do que somos. Mas também não conseguimos abrir os braços para a fatalidade do nosso destino. É tanta semente, tanto suor, tanta lágrima, tanto esforço, tanto plantio... E lá na frente: uma cruz. É o que nos resta. Sejamos, então, por falta de opção, alertas, felizes, feitos de pulsão e ondas. Vivemos num empréstimo com fim determinado. A cada dia uma pancada de água e espuma na praia: repetições do destino sem piedade. Mas sobrou uma aliança com a circunstância: esperemos a colheita. Boa noite.

sábado, 12 de novembro de 2011

Infinito em um


Sabia que em algum momento iria conhecer a obra de Alice Ruiz e chegou a hora. Nada como uma boa oportunidade de estar numa bienal do livro para encontrar uma coletânea com um preço convidativo. Já suspeitava que seria um amor literário a adentrar no meu universo, então não precisei fazer esforço para ficar deslumbrada com os poemas da mulher que compartilhou grande parte de sua vida com outro grande poeta, Paulo Leminski.

Paranaense, Alice nasceu em 1946 e, além de poetisa, também é considerada uma tradutora em potencial. Seu primeiro livro foi publicado aos 34 anos e chama-se "Navalhanaliga". Até agora, a escritora já publicou 19 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Especialista na modalidade haikai (formato de poesia japonesa), ela dá aulas sobre o assunto buscando despertar nos alunos os poetas loucos que podem existir dentro deles.

Na obra "Dois em um", editada pela Iluminuras, está reunida toda a publicação de Alice Ruiz produzida na década de 80. O livro, que ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 2009, traz o gosto da chamada "Poesia Marginal", passeia pelo Concretismo e arrasta o tom oriental em seus versos. "Dois em um" bem que poderia se chamar "Infinito em um", de tão rico de possibilidades, floreios, diversificação, inovação e sabores. É livro para se divertir com profundidade, degustando a objetividade latente que traz verdades da natureza humana. E com essa soma de contradições é que a obra se torna grande: emociona, transborda e revela. Pra que mais?

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Poeminhas:

"depois que um corpo
comporta outro corpo
nenhum coração
suporta o pouco"

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"a data de hoje
a data da tua vinda
fosse outro ano
seria vida"

sábado, 24 de setembro de 2011

"Dez (quase) amores"





Há algum tempo já vinha namorando o livrinho "Dez (quase) amores" por onde passava, seja em livraria, seja em bancas de revistas ou supermercados. Desta vez, levei-o para casa achando que custaria R$ 13,00, como estava na etiqueta, mas não, passou no caixa por R$ 9,90. Amei!

Com uma capa divertidíssima, o livro tem 127 páginas e é editado pela L&PM Pocket (adoro essa coleção, principalmente por chegar ao leitor com mais facilidade devido ao preço e por ser achado nos mais diversos lugares). A autora, Claudia Tajes, é uma gaúcha de 1963 e que já tem seis livros publicados, entre eles "Dores, amores & assemelhados" (provavelmente minha próxima aquisição; se bem que no momento estou à procura de obras de Caio Fernando Abreu).

Confesso que uma das coisas que me chamou a atenção para o livro, mesmo ele estando fechado com aquele plástico básico, foi a sinopse (ou seria prefácio?) feita por Martha Medeiros (declaradamente minha ídola das letras), que se derrama em elogios ao livro. Ela conta que a obra tem "tiradas impagáveis" e funciona como "puro entretenimento".

Os dez (quase) amores são divididos em dez contos que dão continuidade às histórias anteriores, mostrando o caminho percorrido pela personagem, Maria Ana, pelo mundo das atividades amorosas. Cada "meio amor" é contado de forma leve, lúdica, beirando a velha conversa do "rir de si mesmo". A personagem não se vê num conto de fadas e tem consciência disso. Apenas vai vivendo o que a vida lhe oferece, sem medos, mágoas e boicotes aos próprios sentimentos.

As histórias são engraçadas, parecem reais, por isso mesmo denotam mais uma aura de comédia do que de romance. O legal de Maria Ana é que ela parece uma mulher igual a tantas outras, que só estão em busca da felicidade, pois como diz Martha Medeiros, "enquanto não pinta o homem certo, ela vai se divertindo com os errados". Bom humor é a tônica do livro. E quem não gosta de dar boas risadas?