A revista Bravo! deste mês traz, na seção de música, uma matéria intitulada "É o inverno que acaba, é a neve que derrete". O texto fala das mudanças pelas quais muitas músicas brasileiras são obrigadas a passar quando se transformam em versão para o exterior. Como algumas não tem sentido no país onde serão executadas, o conteúdo é modificado. Pior ainda é quando os arranjos ou a própria melodia sofre alterações. Outro dado em destaque na matéria é o fato de os gringos até hoje só quererem levar para fora as versões das canções das décadas de 40 e 60. A primeira, devido ao furacão midiático (para a época) Carmen Miranda. A segunda, devido à moda da Bossa Nova atravessando fronteiras mundo afora.
Mas a questão é: por que o calor do Brasil nas músicas da Bossa Nova tem que virar geleiras nas versões europeias? Ah, os franceses não iriam querer conhecer e absorver a massa cultural brasileira, que ferve e é cheia de notas calorosas? As 'águas de março', por exemplo, tão retratadas por Antonio Carlos Jobim, viraram 'águas do degelo'. Mas vou além: por que a música tem que ter versão para ser aceita, seja nos EUA ou na Europa? Se estiver em legítimo português brasileiral, elas não têm valor?
Bom, aqui chega música de tudo quanto é lugar, no original, com o conteúdo bem preservado. E a gente aqui que se vire pra adentrar naquela cultura e tente compreender o que está sendo dito. A não ser que nós escutemos aquelas versões toscas de Aviões do Forró e porcarias afins. Aí sim teremos nos vingado desses estrangeiros que teimam em levar para o mundo aquilo que não é mais Brasil, e sim um retalho de uma musicalidade diversificada, rica e corada de criatividade como é a brasileira.
domingo, 12 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Prêmio Sesc de Literatura
Pessoal, dei uma pausa aqui, mas agora estou de volta. Estou tomando coragem para me inscrever no Prêmio Sesc de Literatura. Como todos devem imaginar, meus textos não se encaixam em nenhum gênero literário, como conto ou crônica, mas sabemos que são do tipo prosa poética. Bom, então, pra você que tem o sonho de ser escolhido em um concurso deste porte, segue abaixo algumas informações e o link para o edital do Prêmio.
Promovido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), o Prêmio Sesc de Literatura tem como meta premiar textos inéditos nas categorias Conto e Romance, escritos em língua portuguesa, por autores brasileiros ou estrangeiros residentes no Brasil.
As inscrições deverão ser enviadas entre 10 de maio e 30 de setembro de 2010. A data que constar no carimbo do correio servirá como comprovante de inscrição no prazo determinado. As obras inscritas serão analisadas por Comissões Julgadoras compostas por escritores, especialista em literatura, jornalistas e críticos literários, indicados pelo Sesc.
Mais info, segue link abaixo:
http://www.sesc.com.br/premiosesc/edital.html
Promovido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), o Prêmio Sesc de Literatura tem como meta premiar textos inéditos nas categorias Conto e Romance, escritos em língua portuguesa, por autores brasileiros ou estrangeiros residentes no Brasil.
As inscrições deverão ser enviadas entre 10 de maio e 30 de setembro de 2010. A data que constar no carimbo do correio servirá como comprovante de inscrição no prazo determinado. As obras inscritas serão analisadas por Comissões Julgadoras compostas por escritores, especialista em literatura, jornalistas e críticos literários, indicados pelo Sesc.
Mais info, segue link abaixo:
http://www.sesc.com.br/premiosesc/edital.html
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Descabelado tanka

Quando resolvo falar de uma obra, acho importante começar contando como ela chegou até a mim. Gosto de exaltar a sensação das descobertas da leitura e da estreita relação entre o leitor e o livro, puro presente da realidade. Desta vez, não achei a novidade numa livraria. Uma nova amiga encontrou-a bem longe das terras sergipanas e lembrou de trazer para mim. Tem melhor lembrança do que essa? Confesso que fiquei surpresa e receosa. Como lidar com o novo? E quando esse novo se chama “Descabelados” e foi escrito por uma poetisa japonesa?
Bom, mas vamos lá. Pesquisei um pouco sobre o assunto e descobri que Yosano Akiko só tem uma obra traduzida para o português. Esse “Descabelados” faz parte da Coleção “Poetas do Mundo” e é editado pela Editora UnB. Livrinho de bolso, apresenta algumas explicações sobre a poeta e a técnica por ela utilizada, além de trazer, nas páginas da esquerda, o poema no original em japonês, e nas páginas da direita, o poema já traduzido.
Uma coisa é certa: difícil é analisar poemas traduzidos, principalmente quando a gente sabe que muito se perde de conteúdo, muitas vezes tão característico daquela língua e daquela cultura. Sem contar que muito da forma, da rima, da melodia, do jogo dos signos se esvai durante uma tradução. Até a própria interpretação do tradutor soma-se ao que vai resultar na poesia final.
Como não entendo nada de japonês, já me sinto grata só de poder me aproximar desse material que é tão vasto e que é estreitamente ligado ao estilo dos hai-kais, bem difundido no Brasil através do poeta Paulo Leminski. No caso de Yosano Akiko, que viveu entre 1868 e 1912, o estilo mais usado é a composição de forma fixa conhecida como “tanka”. Literalmente, “tanka” significa "poema curto" (tan - curto, breve; e ka - poema ou música).
Pois bem. Esta reunião de tankas de Akiko atrai o leitor justamente pelo acentuado lirismo na poesia. Ela renovou o tanka, vista como a forma mais popular de poesia japonesa. Além disso, criou uma poética moderna pela inserção da própria experiência individual e dos seus sentimentos no modelo clássico de poesia japonesa.
A apresentação do livro resume a importância de Akiko para a literatura japonesa: “Yosano Akiko distinguiu-se desde o princípio como inovadora e portadora, em suas obras, de uma forte consciência feminista. A sua poesia, surgida no momento em que se assistiu ao reflorescer do tanka, ficou famosa pela audácia e pela quebra de convenções, pela linguagem explícita e pelo uso informal da poética tradicional”.
Segue abaixo dois tankas:
a primavera
penso nesta peônia
de sangue ou de amor?
passo a tarde sozinha
incapaz de poemas
---------------------------------
foi ontem talvez
há mil anos passados
o acontecido
ainda agora sinto
as tuas mãos em meus ombros
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Refluxo
As pálpebras cerram o doce recato do sonho. Uma vez desalimentado, o desejo cospe no prato da agonia e relembra cada revés com o carinho de um animal pronto para dar o bote. Melhor mastigar vazio do que vomitar seco o que não se consegue expurgar. Perdido no meio do acaso, o baile da digestão emocional garante boas fisgadas, dançando gostos e ilusões. Refluxo do tempo, embrulho da noite, engasgo do dia. A vida tem descido consistente, úmida, em círculos indecifráveis e nauseabundos. Chamem o futuro, sequem as roupas da ansiedade, vistam as cinzas da revolta e cantem cores porque os músculos da vontade querem dançar.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Contra o vento
Vontade de desabafo. De sambar em cima do que se discorda, do que dá nó na goela, do que faz a carne tremer e mostrar que estamos mais do que vivos: impacientes. Por que essa testa enrugada, sem entender que a vida funciona assim, só assim, que dói só de pensar na ilusão que os outros criam. E dói mais ainda acreditar que você também está visualizando a realidade com as cores que escolheu. Quem garante o absoluto? E essa indignação de ver o mundo acreditando na primeira máscara que se apresenta? Não existem parâmetros para definir o que verdadeiramente é real daquilo que é mera representação alienante? A casca grossa da indignação protege o núcleo sedento por claridade. O mundo diz sim ao absurdo. Eu digo não ao mundo. E vivo muda de maré contrária.
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