sábado, 4 de outubro de 2014
Coleção de pérolas tristes
Pego poemas na escuridão e tento decifrar. Faço de conta que não vejo os nós no colar de pérolas e entrego para a vida aquilo que deveria ser minha função. Espero que ela desate e deixe meu colar como era antes: perfeito, redondo, desembolado, bonito. Mas descobri que, até mesmo quando estava somente reto, escondia suas curvas. As dobras apareciam quando era pendurado no pescoço. E mesmo assim bate um desejo ambíguo, uma vontade de que esse objeto se quebre e voem pérolas por todos os lados, dando fim a uma trajetória de enfeite. Certa vez o escritor Rubem Alves disse que ostra feliz não faz pérola. Significa que andamos por aí com um colar de possíveis desacertos, desarranjos e descaminhos. O mais interessante é que a tristeza tem sua beleza: pérolas emitem uma sensação de tradição, sobriedade, riqueza e poder. Elas existem: isso é fato, é real. Precisamos conviver com as pérolas da vida e ter foco sempre no significado de cada uma, buscando sempre desfazer os nós.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Praia do futuro ou piscina rasa?
Um filme que, pelo jeito, não quer ser visto somente como produção de temática gay, mas não consegue passar disso. A sensação é de que 'Praia do Futuro' veio ao mundo só para dizer: 'vejam, olha só como um gay se relaciona sexualmente com outro'. As águas desse filme podem até ser profundas, mas a história é rasa, o amor retratado é extremamente superficial e eu fico chocada com a quantidade de gente dizendo que viu poesia na película, vociferando que trata-se de praticamente uma obra-prima do cinema estrelado pelo queridinho Wagner Moura. Quanta ingenuidade... O filme é maçante, chato, parado, sem motivo, sem um mote que prenda o espectador. Acho que muitas pessoas fazem a defesa do filme porque tem necessidade de mostrar que não são homofóbicas.
A história já está aí, batida em todos os sites de cinema, então não vou falar aqui. Só vou comentar o que eu, como leiga do assunto, mas cidadã que assistiu ao filme, achei sobre esta perda de tempo. Primeiro, os loucos vão me apedrejar, dizer que sou homofóbica. Estou tão longe disso... Sabia muito bem do que ia rolar no filme, não tive qualquer tipo de problema em ver cenas de sexo, muito menos por ser entre gays, pra dizer a verdade, achei até bonitas. Mas foram cenas que não me trouxeram sentimentos, apenas a beleza daquele momento.
Uma produção brasileira que merecia destaque e que ninguém comentou tanto quanto esse filme foi 'Flores Raras', com Glória Pires. Esse sim, um filme emocionante, que tem conteúdo, história, roteiro, não tem buracos, é bem alinhavado e fez com que eu saísse do cinema com mais vontade de amar aquelas pessoas com quem já tenho afetividade. Isso pra mim é filme. É algo que me motiva, que me faz querer ver mais e de novo, enquanto que 'Praia do Futuro' só me fazia ter vontade de que acabasse logo, de tão monótono, sem força, sem explicações, apenas com um silêncio que em vez de fazer refletir, apenas traz angústia e irritação.
Definitivamente, não recomendaria 'Praia do Futuro' para ninguém. E não tem nada a ver com as cenas de sexo. Nem lembro delas quando estou aqui e agora falando desse filme. Apenas lembro das etapas que não estão costuradas, das cenas sem sentido algum, dos atores desconfortáveis dentro dos seus papéis, da relação entre os personagens tão rasteira, e da pieguice do final. E ainda tem gente que diz que a relação do filme é bem parecida com as relações que mantém na vida pessoal. Ok. Cheguei à conclusão de que tem muita gente que não sabe amar. Faz sexo e acha que isso é o suficiente pra chamar de amor.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Desencaixe
Não caibo. Sensação. Aqui. Instante. Aqui, nesse instante, uma sensação de que não caibo. Ou a sensação de que aqui, não caibo nesse instante. O instante que cabe em mim é menor que o aqui, já um tanto pequeno em mim. Mas se aqui não caibo nem em um instante, por que me furto a querer caber aqui? Eu derramo. Pelos poros. Pelas entradas e saídas. Pelas glândulas. Mas pelo que eu me caio, se o que sai de mim não me pertence, não me deram o controle? Sou cheia, abarrotada, não pertenço a este quadrado ou redondo. É geometral demais para meu sistema lunar. Na antisolaridade eu me reconheço, escureço, viro coruja, arregalo os olhos querendo ver o que nunca vou enxergar. Sede de futuro. Morcega da vida-noite. Onde me caibo? Eu caibo? Me faço de alegria para ver se num minuto qualquer eu entro na garrafa das coisas encaixadas. Porque viver de encaixes identitários é o que realmente me tornaria mais eu.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Caminhante
Um caminho que flerta,
outro
que vai embora,
decida.
Semente sem germinar,
graça sem alcançar,
sorriso a almejar,
reflita.
Hiato dos sonhos,
buraco da consciência,
maracujá pra acalmar,
respira.
Uma vida espaçada,
medida
em turnos de insônia:
descida.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Amoramar
Antes daqueles lapsos de sono, olho pra o porta-retrato no criado-mudo branco que guarda papel de bala. Mato a saudade do amor que só desfalece quando se engole a presença. Algo meio clariceano, como tudo que é profundo, largo, combatente. Porque eu sei que é vida se estabelecendo com pulso de ansiedade, de caminhos tortos, de folhas ao vento. E o judas da ferida ou da solidão é chutado para a fogueira, churrasqueira de angústias nos dias de hoje. É nela que se queima toda a gastura do não-ter. E lá vamos nós colher as maçãs proibidas desta passagem cada vez menos irmã e mais estranha aos olhos da gentileza. Quando achamos que o mundo não tem mais guerras ou paz pra lhe apresentar, que já bastou ter visto os dragões da humanidade, eis que surge o desconhecido que move, atropela, sacode, transforma, distorce, incendeia, derruba orgulhos e vaidades, ganha da prostração e da inércia, além de bater forte no peito estilo vermelho-sangue. Sonhar acordado passa a ser a grande emoção da existência nesta fase esquisita aos olhos dos outros. Só nos resta caminhar entre nuvens, rir à toa, aproveitar o instante, deixar ser mar - espalhado, sorriso amplo, fluido -, brincar com a mágica dos deuses e gozar. Porque pedir explicações não faz parte dele. Amar é amoramar.
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