terça-feira, 31 de maio de 2016

Coração também encharca



Coração cheio também encharca. Nem que seja de lágrimas de amor e realidade. Porque não é só a ilusão que nos faz subir a montanha com a força de um bicho com fome à procura do alimento. O real, aqui e agora, também pode doer de felicidade. E os olhos marejam, o corpo parece levitar, o sol nubla e brilha ao mesmo tempo num bailar que não incomoda, pelo contrário, ajuda a disseminar esse vermelho pulsante que não é sangue e sim a matéria invisível mais elevada e que nos compõe. Sem o amor, estaríamos condenados ao eterno fracasso, ao desespero, ao fim. A vida latejando é o que nos supre de esperança e gratidão. Mas às vezes dói. Não uma dor insuportável ou negativa. Está mais pra um balde cheio de água limpa e feliz, que também transborda como a água suja. A diferença está no que se espalha no chão ou na vida, mostrando que somos capazes de ter um pedacinho do divino em algum compartimento do íntimo. Vontade de servir, doar, se entregar, devolver ao mundo o que recebemos por meio de fios que os nossos sentidos não alcançam, porém, mais resistentes que qualquer concreto que possamos tocar. Não tem sonho neste exato segundo. Tem a coisa em si, a realidade copulando com o espírito do corpo, a sensatez de beijos trocados na mesma intensidade, o desmatamento da desilusão, o murro na cara exigindo destemor e audácia. O sublime em nós manifesta aperto, contração e vontade: ânimo da semente germinando vida para cima, planta se fazendo vistosa, previsão de frutos suculentos no horizonte e seiva correndo coragem no caule.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A experiência


O texto que segue abaixo não é literário. É um relato pessoal de uma experiência muito única e intransferível na minha vida.


Eu vi, ouvi, peguei e principalmente senti a morte dentro de mim. Antes mesmo de morrer, senão nem estaria aqui pra falar. Nunca pensei que fosse passar por uma experiência de quase morte. A sensação é a da certeza de que em milésimos de segundo um abismo lhe levará ninguém sabe pra onde, talvez para o breu do que é vivo. Em segundos inesquecíveis, a certeza da morte anunciada, o vazio maior que já pude sentir, uma solidão monstra, uma desgraça ao não sentir Deus. Momentos de buraco, absurdos, escuridão, incertezas e medo. Porque esse nada por dentro é próprio de todos nós. Morrer é atitude única, particular e intransferível. E quem está com a gente não é quem amamos. Humanos não tem esse poder. Só o sobrenatural pode lhe permitir sentir o vazio e depois se mostrar mais do que dignamente e tão exposto ao ponto de não deixar dúvidas.

Pra quem tem vontade de partir deste mundo por não ver sentido, ter a chance de morrer e, mesmo assim, por reflexo e instinto de sobrevivência, escolher viver é uma provação. Restava saber se o divino iria permitir a segunda chance para que acontecesse um aprendizado. E o improvável aconteceu. Eu quis viver, a força física de um braço chegou, a engrenagem já estragada funcionou, o milagre aconteceu. Se um dia eu amanhecer triste ou com raiva da vida, terei marcas bonitas na mão que sempre vão me alertar para essa dádiva. Sou apenas gratidão. E sei que não vou desperdiçar esta vida. Preciso derramar por aí todo o amor que sinto pelo mundo. Necessitava de provas e testes para acreditar no que sempre apareceu e eu nunca consegui acreditar com tanta força como agora. Um brinde ao cosmos!

terça-feira, 23 de junho de 2015

A partir dos 30...


A gente passa a fase dos 20 anos sem pensar que o tempo vai passar e que as próximas décadas de vida virão. Só fazemos planos para que sejam realizados poucos anos depois. Fazemos parte daquele grupo diminuto e seleto de gente que não pensa em ser avô/avó e que acha isso tão distante da realidade que parece fazer parte de outra dimensão.

Mas os 30 chegam. E antes mesmo da fase balzaquiana (termo direcionado às mulheres, devido ao livro "A mulher de 30 anos", de Honoré de Balzac), acontece o famoso retorno de Saturno aos 29 anos, como fora bem contado por Renato Russo na canção "Vinte e nove": "Passei vinte e nove meses num navio/E vinte e nove dias na prisão/E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno/Decidi começar a viver". É momento de ruptura, de quebra da aura juvenil, de recomeço.

Mas é claro que a mudança ocorre mais por dentro que por fora. Isso em algumas pessoas mais assustadas com a nova fase. Porque em outras, podem aparecer rugas à vontade, que o divertimento, a descontração e a leveza continuam intactos. Só que para esses, os outros às vezes cobram maturidade, responsabilidade, uma imagem séria e até um ar de que "conquistei tudo que queria".

Para os encucados, depois dos 30 a sensação é de ladeira abaixo, de diminuição da capacidade mental, de perda de memória, de distanciamento da infância, de dúvidas como: "Será que ainda posso usar esse short que as gurias pré-adolescentes usam?". É a hora dos questionamentos, em que não se sabe ao certo se tem que seguir as regrinhas da sociedade ou se tem que deixar a vontade própria prevalecer. São tantas as perguntas...

Aí, de repente você se olha no espelho, vê os traços um pouco mais marcados e acha até bonitos. Mais do que isso: começa a gostar dessa maturidade que começa a saltar da alma e aparecer nos "pés de galinha", nas covinhas, nas olheiras. Vemos as fotos dos amigos de mesma idade em redes sociais e começamos a achar o quanto essas pessoas estão lindas com essa nova meia idade, com histórias pra contar, muitas ainda a viver, mas contando já com os primeiros vincos de uma vida vivida e não enterrada.

Há beleza no envelhecer, no dia após o outro, na vivência, na experiência, no corpo que vai se modificando junto com o que vai por dentro. Há amor por essas marcas do tempo que vão nos entregando a quantidade de anos vividos. Mas o que é a idade mesmo? Não importa se o que passou já consegue virar entulho dentro da gente. Sempre é possível fazer uma faxina e deixar o que realmente importa: a dança das cadeiras, os altos e baixos, os revezes, as forças e energias contrárias ou a favor. Tudo isso nos forma, nos dá couro grosso, nos alimenta de história e possibilidade de um futuro diferente e com sabedoria, largando os arroubos da juventude e racionalizando melhor a existência. Às vezes, também usando uma pitada de inconsequência adolescente. Talvez seja a melhor fase: um pouco mais de esperteza, a ousadia de poder brincar de ser menino/a, tudo num corpo que varia entre a disposição descarada e a dor nas costas que é mais comum na terceira idade. Sejamos, pois, trintões cheios de amor e esperanças renovadas!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Venha até a esquina



Pessoal, mesmo inflamada pelo fanatismo, preciso comentar um pouco sobre o documentário “História do Clube da Esquina - A MPB de Minas Gerais”, lançado em fevereiro, mas que só agora tive a oportunidade de assistir. Antes de tudo, de qualquer análise, é importante frisar o seguinte: o material foi produzido como trabalho final do curso de Jornalismo da PUC-SP. E isso - sem preconceito, porque não tenho paciência pra rótulos em cima de estudantes -, faz diferença sim. Neste caso, não pela possível inexperiência, mas talvez pela escassez de recursos financeiros e apoio em vários níveis.

Suposições e desculpas para camuflar as lacunas, brechas e misturebas do filme? Pode ser. Não sei... Acho que pela quantidade de músicos de primeiro escalão e de histórias sobre canções absurdamente belas, realmente fica difícil produzir qualquer documentário. Só por isso já dá pra notar que é muito complicado reunir tanta gente, encontrar disponibilidade dessas pessoas para falar e ainda casar as ideias, narrativas com imagens de fotos e vídeos para dar veracidade ao que é contado pelos próprios integrantes.

Sabe o que eu queria? Que fosse feito um documentário de duas horas e meia, super bem trabalhado, conduzido por cineastas experientes, com uma produtora eficiente por trás e grandes patrocinadores. Porque é isso que o Clube da Esquina merece. A história e as músicas filhas desse conto mineiro tem polpa até demais. Dessa fruta, não comeram nem o caroço ainda.

As edições são frágeis, falta alguma costura, alguma ‘liga’ para o rejunte fazer sentido. Claro que me emocionei em alguns pontos, porque para fã, toda informação vira ouro, toda filmagem de show vira delírio. Mas senti tanta falta de imagens mais tocantes e ângulos mais elaborados. Eu sei que podia mais. Muito mais.



Em um dado momento, Lô Borges conta sobre a criação do disco Clube da Esquina. Em seguida, é exibido um show dele e vários parceiros na Universidade Federal de Minas Gerais cantando, em 2005, a música Clube da Esquina 1. A meu ver, a canção é belíssima em todos os versos. Mas sabe qual o verso mais importante e que tem tudo a ver com aquele início de jovens ainda sem saber onde iriam chegar? É este: “Venha até a esquina, você não conhece o futuro que tenho nas mãos”. Essa é a parte que emocionaria o público, porque a previsão está contida nesta frase, mesmo que eles não soubessem ou não tenham se dado conta até hoje. Mas essa parte da música foi cortada. Canções do Clube da Esquina tem profundidade e alcançam a massa. No cinema, isso pode ser explorado com todo vigor e naturalidade. Mas não foi.

Alguém poderia dizer: “Ah, Lara, dá um desconto, você está exigindo demais. Faria melhor?”. E eu, no alto da minha empáfia de fã, diria que sim, mesmo sem nunca ter pisado num set de filmagem. A idolatria a uma pessoa, a um grupo, a um conjunto de músicas e a uma diferenciada estética musical faz a gente pirar vez ou outra. O povo costuma dizer: “É muito cacique pra um índio só”. Eu poderia parodiar: “É muita genialidade pra pouco documentário”.


Obs.: Mesmo assim vale a pena assistir. É o que temos pra hoje. Sim, eu chorei de emoção algumas vezes.
Segue link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=SACaczm6gA4

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Se somos assim...


Se a gente anda calado de desafios, come quietinho pra ninguém perceber a nossa impaciência, reza para que a vida ande tão depressa tanto quanto o avião que está na pista, correndo pronto para voar, arruma forças para socorrer esse silêncio sufocante que de tão mudo quer gritar amor para todos os ventos, mares e imensidão de céu... Se a gente canta para dentro, gasta as energias em pensamentos sem sentido, engasga com a saliva da angústia, se ofende com a secura do olhar egoísta do que está fora, tenta resgatar a memória daquilo que já foi um dia, permite a tortura entrar e se fazer presente na sala dos sentimentos, coloca água pra dentro tentando limpar o esôfago que sofre com o refluxo das sensações e dos sonhos maltrapilhos... Se deixamos o passar dos dias virar cinza chumbo, o vazio tomar todos os espaços atentos e livres, o mar nos fazer medo com uma simples onda, a solidão ser maior que nós... É porque precisamos ficar mais fortes a cada tropeço, erguer a coragem e caminhar sem parar, sem pestanejar, sem duvidar, sem amolecer, sem descansar. A esperança é pra quem não tem medo de levantar o olhar de dentro e recomeçar. Sempre. 

sábado, 4 de outubro de 2014

Coleção de pérolas tristes


Pego poemas na escuridão e tento decifrar. Faço de conta que não vejo os nós no colar de pérolas e entrego para a vida aquilo que deveria ser minha função. Espero que ela desate e deixe meu colar como era antes: perfeito, redondo, desembolado, bonito. Mas descobri que, até mesmo quando estava somente reto, escondia suas curvas. As dobras apareciam quando era pendurado no pescoço. E mesmo assim bate um desejo ambíguo, uma vontade de que esse objeto se quebre e voem pérolas por todos os lados, dando fim a uma trajetória de enfeite. Certa vez o escritor Rubem Alves disse que ostra feliz não faz pérola. Significa que andamos por aí com um colar de possíveis desacertos, desarranjos e descaminhos. O mais interessante é que a tristeza tem sua beleza: pérolas emitem uma sensação de tradição, sobriedade, riqueza e poder. Elas existem: isso é fato, é real. Precisamos conviver com as pérolas da vida e ter foco sempre no significado de cada uma, buscando sempre desfazer os nós. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Praia do futuro ou piscina rasa?


Um filme que, pelo jeito, não quer ser visto somente como produção de temática gay, mas não consegue passar disso. A sensação é de que 'Praia do Futuro' veio ao mundo só para dizer: 'vejam, olha só como um gay se relaciona sexualmente com outro'. As águas desse filme podem até ser profundas, mas a história é rasa, o amor retratado é extremamente superficial e eu fico chocada com a quantidade de gente dizendo que viu poesia na película, vociferando que trata-se de praticamente uma obra-prima do cinema estrelado pelo queridinho Wagner Moura. Quanta ingenuidade... O filme é maçante, chato, parado, sem motivo, sem um mote que prenda o espectador. Acho que muitas pessoas fazem a defesa do filme porque tem necessidade de mostrar que não são homofóbicas.
A história já está aí, batida em todos os sites de cinema, então não vou falar aqui. Só vou comentar o que eu, como leiga do assunto, mas cidadã que assistiu ao filme, achei sobre esta perda de tempo. Primeiro, os loucos vão me apedrejar, dizer que sou homofóbica. Estou tão longe disso... Sabia muito bem do que ia rolar no filme, não tive qualquer tipo de problema em ver cenas de sexo, muito menos por ser entre gays, pra dizer a verdade, achei até bonitas. Mas foram cenas que não me trouxeram sentimentos, apenas a beleza daquele momento.
Uma produção brasileira que merecia destaque e que ninguém comentou tanto quanto esse filme foi 'Flores Raras', com Glória Pires. Esse sim, um filme emocionante, que tem conteúdo, história, roteiro, não tem buracos, é bem alinhavado e fez com que eu saísse do cinema com mais vontade de amar aquelas pessoas com quem já tenho afetividade. Isso pra mim é filme. É algo que me motiva, que me faz querer ver mais e de novo, enquanto que 'Praia do Futuro' só me fazia ter vontade de que acabasse logo, de tão monótono, sem força, sem explicações, apenas com um silêncio que em vez de fazer refletir, apenas traz angústia e irritação.
Definitivamente, não recomendaria 'Praia do Futuro' para ninguém. E não tem nada a ver com as cenas de sexo. Nem lembro delas quando estou aqui e agora falando desse filme. Apenas lembro das etapas que não estão costuradas, das cenas sem sentido algum, dos atores desconfortáveis dentro dos seus papéis, da relação entre os personagens tão rasteira, e da pieguice do final. E ainda tem gente que diz que a relação do filme é bem parecida com as relações que mantém na vida pessoal. Ok. Cheguei à conclusão de que tem muita gente que não sabe amar. Faz sexo e acha que isso é o suficiente pra chamar de amor.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Desencaixe


Não caibo. Sensação. Aqui. Instante. Aqui, nesse instante, uma sensação de que não caibo. Ou a sensação de que aqui, não caibo nesse instante. O instante que cabe em mim é menor que o aqui, já um tanto pequeno em mim. Mas se aqui não caibo nem em um instante, por que me furto a querer caber aqui? Eu derramo. Pelos poros. Pelas entradas e saídas. Pelas glândulas. Mas pelo que eu me caio, se o que sai de mim não me pertence, não me deram o controle? Sou cheia, abarrotada, não pertenço a este quadrado ou redondo. É geometral demais para meu sistema lunar. Na antisolaridade eu me reconheço, escureço, viro coruja, arregalo os olhos querendo ver o que nunca vou enxergar. Sede de futuro. Morcega da vida-noite. Onde me caibo? Eu caibo? Me faço de alegria para ver se num minuto qualquer eu entro na garrafa das coisas encaixadas. Porque viver de encaixes identitários é o que realmente me tornaria mais eu. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Caminhante



Um caminho que flerta,
outro
que vai embora,
decida.
Semente sem germinar,
graça sem alcançar,
sorriso a almejar,
reflita.
Hiato dos sonhos,
buraco da consciência,
maracujá pra acalmar,
respira.
Uma vida espaçada,
medida
em turnos de insônia:
descida.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Amoramar


Antes daqueles lapsos de sono, olho pra o porta-retrato no criado-mudo branco que guarda papel de bala. Mato a saudade do amor que só desfalece quando se engole a presença. Algo meio clariceano, como tudo que é profundo, largo, combatente. Porque eu sei que é vida se estabelecendo com pulso de ansiedade, de caminhos tortos, de folhas ao vento. E o judas da ferida ou da solidão é chutado para a fogueira, churrasqueira de angústias nos dias de hoje. É nela que se queima toda a gastura do não-ter. E lá vamos nós colher as maçãs proibidas desta passagem cada vez menos irmã e mais estranha aos olhos da gentileza. Quando achamos que o mundo não tem mais guerras ou paz pra lhe apresentar, que já bastou ter visto os dragões da humanidade, eis que surge o desconhecido que move, atropela, sacode, transforma, distorce, incendeia, derruba orgulhos e vaidades, ganha da prostração e da inércia, além de bater forte no peito estilo vermelho-sangue. Sonhar acordado passa a ser a grande emoção da existência nesta fase esquisita aos olhos dos outros. Só nos resta caminhar entre nuvens, rir à toa, aproveitar o instante, deixar ser mar - espalhado, sorriso amplo, fluido -, brincar com a mágica dos deuses e gozar. Porque pedir explicações não faz parte dele. Amar é amoramar.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Bethânia e seu Oásis

Um 21 de abril bem bonito pra ficar na história de Aracaju. Data em que Maria Bethânia trouxe seu show "Cartas de Amor" para o Teatro Tobias Barreto e nos encheu de arte, intensidade, sintonia, flor no coração e cantos de amor na alma.
Em um dado momento, Maria Bethânia deu um intervalo e seus músicos continuaram, sob a batuta do maestro Wagner Tiso, nos embalando com pérolas mineiras, se eu não me engano, "Os sonhos não envelhecem", "Cais" e "Maria, Maria". Tiso é mineiro e não iria perder a oportunidade de nos emocionar. 
No registro, fotos um pouco turvas, mas bem sinceras desta blogueira. 





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Couro fino


Vida aberta para a vociferação das confusões que vem das palavras. Dizemos o que não deveria ser dito. Calamos aquilo que poderia vir ao mundo como a força de uma faca sendo enfiada na carne de um animal que segue para o abate. Isso porque a realidade abre fendas naquilo que teoricamente já estaria cicatrizado, então a insolação desse ar bruto nos faz mais arredios e quentes de desgosto. Não se salva uma pedra cauterizada pelo suor desse sal do momento. Até lágrimas evaporam no calor da expectativa, mas pelo menos nos salvam em segundos de cortes afiados na garganta: o que estava preso, se liberta, senão pelo signo linguístico, pelo menos pela água salgada que escorre na face de quem tem o revestimento mastigado e a pele com três camadas expostas à selvageria do mundo. Enxertemos a epiderme de coragem e dureza, porque nesta caminhada áspera, só o couro grosso sobrevive.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sereno


Invenção dos pontos que fecham esquinas e becos, protegendo o couro da realidade com tanta fita marcada para interligar a coragem e a sorte. Quem caminhou nessas ruas, percebeu a dureza das pedras e o chão escorregadio de uma chuva lacrimosa que limpou até a face lânguida do vazio. Sereno, o sereno esfria o nariz de quem sorri desajeitado, como se fosse a última alegria explorada na viela de dentro. Água, córrego, gotas, coração. Tum tum na calçada pra avisar que a tempestade chegou, avançou sobre as paredes da inconstância e soterrou a casa feita de incertezas. Sobraram restos de madeira prensada na esperança e mais a segurança de uma noite seca e suave. A vida é feita de barrancos, quedas e reconstruções. Enquanto o trovão esquarteja ouvidos e medos, cresce a palpitação de um caminho que só existe apontando para frente, lá onde o vento de sangue bombeia a cavidade das paixões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Lá maior


Eu queria ser uma música, daquelas que deliram por si, que também são absorvidas pelos poros, entram na veia da realidade e transformam a seca em água de sentimentos. Inundação de ilusões à beira de derramar, gostosa, silente e intensa. É nessa lagoa que quero descansar meu corpo, refugiar os meus mais belos olhares e manter uma harmonia dos sentidos. Prefiro deixar entrar essa vibração aguada, latente e pulsante, à qual me entrego e me deleito sem pestanejar, deixando a vida se colorir e o ar dançar entre as nuvens do pensamento. Estou solta, leve, lilás, deitada na luz que me esquenta e me carrega para o horizonte mais bonito, aquele em que as montanhas parecem uma sombra escondendo o sol a se por, dizendo pra chegar mais perto, se aproximar, gastar os passos pra cantar pra o alto. E quando a nota chegar nas nuvens, todo o céu vai se espraiar, derramar gotas de sonhos e ferver coragem. Verei de perto esta sangria harmônica percorrendo os tendões do mundo.

Foto: Lara Aguiar

domingo, 30 de setembro de 2012

Vai e não volta


Constância de sonhos, desmembramento de construções, olhar perdido na infinidade de possibilidades. O nada se prontifica, faz instalação em peito farto de tiros ao vento. E o cheio se aproveita para descansar enquanto não é chegada a hora de abastecer a vida com galanteios da música, floreios de amor e quedas menos bruscas. Já que o tombo existe, que seja apenas de raspão. A arma já está apontada para a cabeça e as ilusões não demonstram nem interesse em permanecer. Só o real agoniza, força a dor e desencanta até os mais lúcidos, calejando o que é de dentro e feito para ser intenso. Quanto mais se justifica o silêncio dessa agonia, mais ela se expande, ganha dimensões nada coloridas e flerta com a decadência. Sobreviver ao caos é preciso. E mais necessário ainda é ver o amanhecer ouvindo os violinos da vida pulsando e chamando para o combate. Assim a crença se volta para a necessidade do olhar infinito em busca da primeira dança de sorrisos a bailar pelo corpo. 

Foto: Lara Aguiar
- Obra de arte exposta no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Teias de uma história


Desencontros, desamores, destemperos. Todos numa só construção de teias entre vidas que se cruzam em momentos distintos, cada um com suas verdades. O livro de Claudia Tajes, “Dores, amores & assemelhados”, traz um festival de desilusões, ilusões, pura vida amorosa em cada página. Esse cotidiano de coisas é o que move as personagens Júlia e Jonas num desenrolar sem fim.
Como o livro é dividido em partes, contando a mesma história só que em versões diferentes, pelos ângulos de visão dos dois personagens, a cada página virada é uma surpresa ver o pensamento de um e de outro sobre uma mesma situação. Como pensa o homem e como pensa uma mulher? Aí já entra num viés que trata de gêneros e então é melhor ficar por aqui.
O que importa é que a história prende o leitor, como se dissesse: devora-me ou te devorarei de curiosidade. Além disso, Tajes brinca com o não-dito, com as entrelinhas, com o texto fluido e rico de composições peroladas. Verdadeiras sentenças da existência com seus entrecruzamentos sendo relatados por Tajes, o que torna o conteúdo um tanto delicioso e excêntrico.
O humor é presença marcante nos textos de Claudia Tajes. Contagia devido à naturalidade com que as coisas são contadas, expressas, sentidas. Júlia e Jonas vivem uma história paralela, mas cheia de nuances interessantes. Enquanto isso, o leitor aprecia a vida dos dois como se estivesse olhando pela janela da vizinha fofoqueira. O final? Ah... Isso, só lendo. Leitura mais que recomendada.


Segue um trechinho abaixo:
"Supondo que a maioria das pessoas saiba como funcionam essas coisas, digo apenas que tomei muito cuidado para não passar nem perto da cavidade onde um dia houve um siso. Quarta-feira, na terapia, eu discutiria longamente a minha necessidade de manter uma imagem sexualmente agressiva, mesmo após uma cirurgia dentária". 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sem tarjas

Longe da fúria das pontiagudas navalhas e dos sacos imóveis de cimento estacionados nos becos, uma fina lâmina de marcas de expressão conquista o presente. Ela se movimenta em círculos, em vai-e-vens desenfreados, em doces fórmulas incompreensíveis ao olho humano. Soterra confusões semiabertas, corrói o ferro do que é triste e coça forte a garganta das possibilidades. Já vestiu a pura roupa onde só os vestígios fervem de calor certeiro e indolor. A loucura também passeou por essa obra em construção, com botas de cano curto, pisando brejeira e sensual num chão íngreme e escorregadio. Depois, ainda levou o vento pra passear, soprando levemente o vestido que um dia cobriu a escuridão de um tempo vazio e delicado. Ela dançou a vida das tarjas, um dia pretas, outro dia vermelhas, e agora canta um som valoroso, seguro, firme e desafiador. Nesse caos invernoso, surge um sol de caê.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Noite em claro pode ser insônia boa

Martha Medeiros, te amo!
E lá vou eu de novo com ela, grande amor, mas não único. E não é que a editora L&PM Pocket lançou no final de maio um livro de Martha? Sem muito estardalhaço, esse veio quietinho, mas veio intenso, arrebatador. É uma espécie de novela e que se encaixou na 'Coleção 64 páginas' da editora, com preço fixo de R$ 5,00. O título? Sugestivo e veio bem a calhar nesses tempos de insônia coletiva: "Noite em claro".
Se você for um leitor ávido, acho que dá pra ler em uns 15 ou 20 minutinhos. O texto é rápido, não trava e ainda oferece umas risadas solitárias, principalmente diante de frases inesperadas no meio da narrativa. Nesta obra, Martha insere uma ousadia: em uma página, conta a história que ocupa apenas metade da folha; em outra página, apenas uma frase ou uma palavra. Quebras na linguagem pra dar um efeito exclamativo e reflexivo à história.
Pra quem é fã ou pra quem não é, vale a pena conferir a novidade.

Dois trechos abaixo:


"Amor é uma palavra bela, mas inalcançável. Amor é um Himalaia, um Aconcágua. Bom de sonhar quando se está estendida numa rede, roteirizando cenas que nunca serão vividas. Mas prefiro sexo".

"Primeiro casei com um filósofo que não podia me comer, agora vivo com esse homem que me come sem que a gente converse e analise corajosamente o que está acontecendo. No início, eu pensava: entre um e outro, escolho o futuro. Algo que está por vir. Enquanto o futuro não vem, me divirto com esse acidente de percurso. Foi a minha queda, a minha granada: achar que estava apenas me divertindo". 


domingo, 3 de junho de 2012

Gravado na parede de Drummond

Boa noite, pessoal. Digitei pra vocês um poema de Drummond que nunca foi publicado em livro. Assim como este, outros 24 poemas inéditos foram encontrados em seus arquivos. A Revista Bravo! deste mês traz alguns poemas e conta que agora a editora Cosac Naify vai publicar a obra. 

Segue abaixo: 

Gravado na parede
Saber que tu não virás nunca encher de rosas o meu quarto,
encher de beleza a minha vida...
e continuar à espera, de mãos vazias...

Saber que não partirás o meu pão, que não beberemos juntos,
ao jantar, um pouco d'aquele amável grato vinho velho,
que não acenderás a minha lâmpada,
que o piano não possuirá os teus dedos...

Saber tudo isso, o impossível e o irremediável
de tudo isso... e continuar sonhando inutilmente.

Ah! Por que não virás encher de rosas o meu quarto?
Ao menos, vem encher-me de lágrimas os olhos.



(Carlos Drummond de Andrade)




sexta-feira, 1 de junho de 2012

Uma curiosidade...

Clicando ali, clicando acolá... encontro uma letrinha fora do lugar.
Cruz e Sousa, nosso famoso simbolista brasileiro, está "enZeado" na parede. O correto é com "S".
E isso é apenas uma observação. :-)